
Quem não se incomoda de ver pessoas dormindo nas calçadas?! Se alguém disser que passa indiferente a essas tristes cenas, cada vez mais comuns no meio urbano, ou estará mentindo ou é de fato cego e não pôde constatar mais um exemplo de disparidade sócio-econômica do nosso país.
Aqui perto de casa, em Botafogo, temos a Cobal – Companhia Brasileira de Alimentos – ou mais popular como reduto de bares e feira livre no pólo gastronômico de Botafogo, onde o pessoal vai para fazer um happy hour, fazer refeições até em família, curtir alguns jogos de futebol pelos telões dos bares, escutar um show de chorinho, bater papo e curtir o calor à noite apreciando a vista do Cristo Redentor, logo acima de suas cabeças… Enfim, um ótimo lugar pra encontrar os amigos.
Da nossa casa até lá é literalmente um pulinho, mas para concluir esse pulinho a gente esbarra nos moradores de rua, deitados ou sentados nas calçadas, cheirando cola, fumando maconha e/ou muitas vezes, preparando as embalagens de suas vendas da noite. Sinceramente, neste caso, onde também há duas pré-escolas próximas a Cobal do Humaitá, fica difícil aceitar que os “mendigos”, “indigentes” ou “homeless” continuem onde estão. Quando mudei pra cá, 1 ano atrás, eles apareciam eventualmente, provavelmente oriundos da Favela Dona Marta, há umas 5 quadras da Cobal, mas nos últimos 2 meses estão em família, reunidos nas imundas calçadas aqui do bairro. Semana passada, perplexa por ter checado de perto, às 7h50 da manhã que inclusive um menino aparentando 3 ou 4 anos dormia com os pai na calçada, comentei com alguns moradores conhecidos e com o porteiro do meu prédio a sensação de frustração que sinto por não poder ajudar, nem interferir nesta triste realidade. O porteiro me respondeu, em curtas palavras: “essa gente tem que apanhar, mandar sumir com elas daqui. Eu mesmo já pedi aos lixeiros (do caminhão de lixo da cidade) que amanhã joguem baldes de água nessa gente, pra ver se desistem de ficar por aqui”. Não preciso nem dizer que fiquei boquiaberta com o que escutei!
Entrei em casa, após minha caminhada e, fucei – literalmente – em todas as páginas das Secretarias de Estado de Assistência Social e Municipal, sites da Prefeitura do Rio, do RJTV entre outros, atrás de orientações sobre como proceder nesses casos. Lembro bem que lá em Curitiba, há um programa de resgate social para moradores de rua além de abrigos, especialmente quando há situação de abandono ou exploração envolvendo crianças nas ruas, mas aqui no Rio não há medidas assim. Existem abrigos, mas como fazer com que o indigente se mova até lá? Eu teria que levá-los? A Prefeitura não providencia a locomoção e conta ainda com o fato de que a iniciativa partiria dos próprios indigentes, já que seriam eles os maiores interessados. Mas seriam mesmo? Acho que mais interessados estamos nós, da classe média, insatisfeitos por pagar impostos, por pagar um alto custo de vida para manter um padrão de qualidade de vida que, neste caso, por exemplo, é jogado no lixo quando temos que passar a conviver com adultos e crianças dormindo nas calçadas em frente a nossos prédios, urinando e defecando nas mesmas, se alimentando dos lixos que saem de nossas casas e ainda, fazendo exacerbar nossa angústia e revolta com tantas disparidades sociais impostas a nós diariamente…
1 semana depois desse meu desabafo no meu diário pessoal e de muitas conversas sobre o assunto com meu marido, assistimos ontem uma reportagem na televisão, que abordava exatamente este tema. Infelizmente ela aponta o problema, como eu, mas não implica em como resolver a questão. Segue abaixo:
Do G1, no Rio, com informações do RJ TV
De acordo com relatório da prefeitura, número aumentou de 1.682 para 1.932 em um ano. No Centro e em Madureira o crescimento foi de 40%.
Pelo segundo ano consecutivo, a prefeitura do Rio contou a população de rua em vários bairros da cidade e constatou um aumento de 250 moradores de rua. O número em 2006 era 1.682. Em 2007, foram encontrados 1.932 desabrigados vivendo em calçadas, praças e até monumentos da cidade. O crescimento estaria concentrado na Zona Norte e no subúrbio.
Segundo a secretária municipal de Assistência Social, no Méier, no subúrbio do Rio, e na Zona Sul, o número de pessoas que dormem nas ruas diminuiu. Mas em áreas como o Centro e Madureira, cresceu quase 40%.
O levantamento da prefeitura também traçou o perfil desses moradores. A maioria é de homens entre 25 e 64 anos de idade, dos quais 40% são da capital e 15%, de outras cidades do estado. Muitos dormem nas ruas porque estão desempregados ou porque tentam, na madrugada, conseguir algum dinheiro para sobreviver.
Falta de abrigos é problema
O paulista José Aristeu, que é viúvo e está doente, tenta uma vaga nos abrigos da prefeitura que garantem permanência durante o dia e a noite. “Eu trabalhava, mas agora não tenho onde ficar e nem como trabalhar. Onde deixar a roupa? Onde dormir?”, lamenta o morador de rua.
O desempregado de 49 anos, João Batista, está desabrigado e lamenta a falta de ajuda. “Tinha um abrigo, mas era abrigo de pernoite. E pernoite é só para dormir, de noite. De dia, o cara fica na rua”, explica.
O secretário municipal de Assistência Social, Marcelo Garcia, diz que a prefeitura precisa ampliar o número de abrigos, mas defende a criação de uma agência metropolitana para cuidar do problema e encontrar soluções. Em 2005, estado e município discutiram a criação de um consórcio para evitar que pessoas de outra cidades passassem a morar nas ruas do Rio, mas o projeto não foi em frente.
Trabalho pode ser solução
O secretário pretende ampliar o número de vagas no Centro do Rio com hotéis para famílias com crianças e trabalhar pela oferta de emprego à população de rua. Garcia citou a Comlurb como parceiro para projetos de inclusão social, como a criação de um galpão para catadores de papel e latinhas, onde os trabalhadores também poderiam dormir.
“O problema a gente conhece. A gente quer uma reunião para discutir como é que cada ator desta Região Metropolitana vai agir em relação ao problema da população de rua nos grandes centros”, afirma o secretário.
A assistente social da secretaria estadual de Ação Social, Andrea Mayer, acredita que é viável a criação de um consórcio coordenado pelo estado. Segundo Mayer, desde o início da atual gestão da secretaria, foram retomadas as reuniões com os municípios que integram a Região Metropolitana do Rio para criar uma ação intermunicipal de atendimento à população de rua. A assistente social informou, ainda, que a secretaria planeja passar a administração de abrigos e fundações para os municípios.
Ajuda por telefone
A prefeitura informou que os moradores de rua que quiserem buscar ajuda podem ligar para (21) 3973-3800 ou, ainda, a cobrar para o celular (21) 9923-0966. Estes telefones também podem ser usados para denunciar a exploração de crianças nas ruas ou em sinais de trânsito pela cidade.
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