Ainda mais esperto
Seu filho está crescendo e você se surpreende a cada dia com a capacidade que ele tem de aprender coisas novas. Saiba que é possível ajudá-lo a desenvolver ainda mais habilidades. Descubra a importância dos estímulos e pratique-os. (Por Daniela Tófoli e Tamara Foresti)
Pense em um quintal com terra nos fundos da sua casa. Todos os dias ele recebe sol, chuva, passarinhos e borboletas. Meses depois, mesmo com visitas limitadas, talvez você note uma flor nascendo. Agora experimente jogar algumas sementes, adubar o solo e plantar mudas. Reparou no lindo e variado jardim que está florescendo? O mesmo acontece com o seu filho. Ele recebe estímulos do mundo externo. Porém, a sua atenção e o seu cuidado são os fertilizantes necessários para o desenvolvimento de todas as capacidades dele. É o seu estímulo que faz desabrochar as habilidades finas da criança, assim como a mão do jardineiro fortalece as flores.
Tanto é que uma pesquisa da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, descobriu que a média de QI das crianças subiu mais de 20 pontos nos últimos 50 anos. A explicação? Famílias menores e pais intelectualmente ativos, dois fatores que favorecem a estimulação e, assim, fazem a nova geração ficar ainda mais esperta. “Os pais que não estimulam os filhos negam a apresentação do mundo à criança”, diz Diana Pancini de Sá Antunes Ribeiro, psicóloga e integrante do projeto Psicoterapia Psicanalista Infantil e Saúde Mental Coletiva, da Unesp, em Assis (SP). Tenha em mente que seu filho está programado a absorver todos os tipos de instigações, mas precisa de experiências para aprender com elas. A criança não estimulada não se desenvolve plenamente, criando lacunas de aprendizagem.
“O cérebro é organizado para receber estímulos contínuos, aperfeiçoando-se e evoluindo. Quando somos estimulados, o metabolismo na região cerebral que está trabalhando se acelera, gerando aprimoramento das funções”, diz Maria Valeriana Leme de Moura-Ribeiro, neuropediatra, professora titular da Unicamp (SP) e uma das autoras do livro Neurologia do Desenvolvimento da Criança (Ed. Revinter). Tanto que mesmo quando chegamos à terceira idade é preciso continuar exercitando o cérebro para que ele não se atrofie. Palavras cruzadas, por exemplo, são uma atividade indicada desde a infância.
Biologicamente falando, o bebê nasce com mais de 100 bilhões de neurônios, porém eles precisam estar interligados para que ocorra o aprendizado. As ligações são feitas por meio de pontes, as chamadas sinapses. Estas, por sua vez, necessitam de uma incitação – o estímulo – para acontecer e tecer as redes de conhecimento. Na infância, o cérebro humano tem maior possibilidade de se organizar e reorganizar. Nesta época, as janelas de oportunidade – momento no qual o cérebro está preparado para desenvolver habilidades específicas, como andar ou fazer contas – estão abertas. Mas nem todos os pais conseguem aproveitar a boa fase, principalmente os de classe social mais baixa, que têm menos acesso à informação.
Longe do potencial
Um estudo feito no ano passado pela University College de Londres, no Reino Unido, afirmou que 200 milhões de crianças menores de 5 anos nos países mais pobres não atingem seu potencial de desenvolvimento. “Os pais não têm tempo nem a cultura do estímulo, prejudicando a criança. Mas, se por um lado o desenvolvimento intelectual é lento, o motor é favorecido, afinal, o bebê é mais independente, fica mais livre e tem maiores chances de se locomover”, explica Abram Topczewski, neuropediatra do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.
A falta de estímulo intelectual pode acarretar um outro problema: a violência doméstica. Segundo uma pesquisa conduzida em janeiro de 2007 pela Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, crianças estimuladas com livros e brinquedos educativos têm menores chances de receber castigo físico dos pais. Uma das explicações para o fato é que, quanto mais o intelecto é instigado, melhor é o comportamento infantil.
Para estimular seu filho, não é preciso comprar brinquedos, jogos e livros caros. No caso dos livros, uma boa biblioteca vai colocá-lo em contato com as obras infantis e ainda fazer com que aprenda a cuidar de algo que não é dele. No caso dos brinquedos e jogos, basta juntar um pouco de sucata e incentivar a imaginação da criança. “Ela vai explorar o objeto até descobrir tudo sobre ele. É por isso que, às vezes, você compra um carro de controle remoto de última geração e, depois de um tempo, ele cai no esquecimento total”, diz Topczewski. Já lápis, argila e caixas de papelão representam inúmeras oportunidades de brincadeiras e são sempre uma diversão – e um estímulo – certa para a garotada.
Biblioteca e sucata
Só tenha cuidado para não estimular excessivamente nem oferecer atividades que seu filho não está preparado nem disposto a receber. Por exemplo, se você é craque no tênis, mas seu filho nada como um peixe, apresente o novo exercício como brincadeira, insista um pouco e, se perceber que ele não se interessa, desista bem antes de fazê-lo odiar as raquetes. A criança aprende quando se diverte. É um consenso entre os cientistas que, ao brincar, o cérebro ganha complexidade, deixando-a mais habilidosa, flexível e socialmente adaptável.
Mais importante que o tipo de estímulo que você dá ao seu filho, porém, é a forma de apresentá-lo. “A criança deve estar em um ambiente propício para se desenvolver. Precisa do carinho e da segurança dos pais”, diz a neuropsicóloga Cássia Maria Ramalho. Em vez de impor uma atividade, faça a proposta sem grandes expectativas e veja se o pequeno a aceita. Lembre-se de que o melhor estímulo é a vida e o seu papel é dar oportunidade para a criança aproveitá-la. Por exemplo: em um parque, deixe seu filho sentir o cheiro da grama e a textura da terra. Ensine as cores mostrando as asas da borboleta e deixe-o brincar até as meias ficarem encardidas. O segredo do aprendizado é fazer com que ele sinta prazer e curiosidade pelo processo. Parece difícil? Pense na construção de um prédio. Enquanto os operários montam o esqueleto da obra, contam com a ajuda de andaimes para erguer o edifício. Esse é o papel dos pais: sustentar o crescimento infantil, servindo de apoio para o desenvolvimento. À medida que a criança cresce e ganha independência, você retira as armações e a deixa caminhar sozinha, porém sempre sob seu olhar.
Não há uma poção mágica para transformar seu garoto na criança mais esperta e habilidosa do mundo, mas há maneiras saudáveis de descobrir e instigar os talentos especiais dele. E você consegue isso aos poucos, na mesma velocidade com que ele deixa de engatinhar e passa a pilotar uma bicicleta. A regra de ouro é respeitar os limites de cada fase, tirando o máximo proveito delas. E é isso que vamos estimular você a fazer a seguir.













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